Teria sido uma surpresa bastante agradável não fosse o fato de ela ter me rendido e me amarrado em um dos quartos da casa, era meu antigo quarto. As janelas estavam barricadas com tábuas de madeira e as cortinas tinham sido improvisadas com alguns cobertores velhos. A falta de luz e a umidade alta frequente na cidade tinham deixado suas marcas na parede: o mofo crescia abundante por todo o concreto. Estava difícil respirar e ainda mais difícil entender o que estava acontecendo, eu ainda estava em choque com o episódio anterior e não conseguia raciocinar direito para dar uma explicação lógica para tudo aquilo. Voltei a ouvir os passos firmes de Michelle se aproximando do meu quarto, chegando em frente a minha porta ela exitou por alguns segundos antes de abrir a porta com força. A luz do dia invadiu o quarto me cegando por alguns instantes, foi nessa hora que escutei a voz de Michelle gritando comigo:
-Você pretendia me deixar aqui até quando?
-Michelle eu...-Você o que? Achou que eu já estava morta, é isso?
-Não, eu não consegui sair de onde eu estava durante todo esse tempo, logo que me resgataram eu vim correndo atrás de você!
-Eu quase morri seu filho de uma mãe, eu fiquei aqui nesse inferno o tempo todo com seus pais, porque não mandou seus amiguinhos virem me resgatar também?
-Eles já tinham fechado o perímetro da cidade Michelle, ninguém viria atrás de você!
-Eu esperava mais de você Noa, eu esperava sua coragem em me defender nesses 11 dias que você se ausentou, eu achei que você estava morto mas não! Você apenas estava se escondendo feito um rato... Deus sabe onde! Eu olhava por essa janela todos os dias esperando a tua coragem em aparecer por aqui. 11 dias Noa, 11 dias sozinha nesse inferno. Você tem ideia do que a rejeição pode fazer com alguém?
Um olhar sádico mas triste tomou conta de seu rosto, era quase como se Michelle estivesse possuída pelos seus instintos mais selvagens. As únicas vezes que tinha visto algo parecido era quando brigava comigo por ficar até tarde no trabalho ou quando não levava o cachorro pra passear no horário certo. Era amedrontador, fazia com que arrepios tomassem conta de meu corpo.
Dizendo isso ela se virou, esperou na porta alguns segundos quase como quem espera uma resposta e então saiu trancando a porta.
Eu precisava sair, precisava fugir... tinha a certeza de que ela me mataria. As cordas que ele tinha usado estavam bem velhas e me pareciam meio quebradiças, sabe... o tipo de corda que fica por anos no porão. Comecei a raspar a corda contra a viga que me prendia e uma por uma as ligações foram rasgando, não foi difícil já que as cordas estavam bem velhas. Peguei um pedaço razoável dela e esperei atrás da porta por horas até Michelle vir me alimentar de novo.
Finalmente ouvi seus passos vindo em direção ao quarto lentamente, sua bota pesada fazia muito barulho no chão de madeira. Ouvi sua mão girando a maçaneta da porta e a abrindo, o ranger da madeira fez um barulho alto, alto o bastante para ela não ouvir minha respiração ofegante. Ela deu 3 passos para dentro do quarto e foi aí que eu prendi seu pescoço com a corda, apertava forte mas não queria mata-la, desejava apenas que ela desmaiasse antes disso e foi o que aconteceu. O seu corpo caiu imóvel no chão mas ela ainda respirava. Corri até o quarto onde meus pais estavam e guardei um dos facões comigo, por azar não consegui achar o rifle que Michelle usava mas aquilo era suficiente para salvar minha vida caso precisasse. Voltei ao quarto escuro e prendi Michelle com alguns panos velhos e cobertores, estava firme o suficiente.
12 Horas haviam se passado e eu estava no sofá tentando fazer o velho rádio do meu pai funcionar, estava mudo em todas as estações e mesmo com o volume no máximo eu não conseguia escutar nada além dos pés de Michelle batendo no chão do outro quarto, ela gritava e os batia, me jurava de morte e dizia que tudo aquilo teria vingança. A vingança da vingança.
Ao rodar por todas as estações me deparei com uma em particular, 89.1 AM. Ela dizia uma mensagem repetida "A todos aqueles ainda presos na cidade... nós temos abrigo e segurança, não desista o exercito ainda está fazendo buscas". Mentira. Eles haviam desistido das buscas 3 dias atrás, poderiam ao menos tirar a mensagem do rádio. Em minha concentração e pensamentos não percebi a movimentação que vinha do lado de fora, com os barulhos e gritos que Michelle havia feito uma horda de monstros se juntava lá fora, era horripilante. No momento em que eu corri para calar a boca da minha ex-noiva ouvi a porta da frente despencando, eles estavam dentro. Tentava cortar as amarras de Michelle, mas ela me chutava e me afastava tornando o trabalho impossível e mais desesperador do que já era. Ouvi batidas na porta do quarto justo no momento em que consegui cortar as amarras, tentei puxar Michelle pelo braço mas ela se recusava a fugir comigo.
Quebrei a janela do quarto e sai correndo, um tiro certeiro que a vadia me deu como despedida acertou meu ombro direito, era esse jeitinho meigo que eu tanto amava. Ao olhar pra trás não vi nada além dela sorrindo na janela com aquele mesmo olhar sádico e horripilante... corri e nunca mais olhei pra trás. Eu estava sozinho.
Cidade do Silêncio
domingo, 2 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Pt.2- De volta para casa
Era uma manhã fria de quinta-feira, a chuva caia lavando o sangue que se encontrava por toda a cidade, eu tinha um objetivo a cumprir e não voltaria sem noticias de meus entes. Cortei o bloqueio fracamente colocado na área rural e adentrei as estradas de terra que me levariam até a cidade. Andei com cautela, desarmado e assustado, desconfiava da minha própria sombra.
Andando alguns metros me deparei com uma grande casa de madeira era alta e imponente, ficava sombria com a chuva que caia e as janelas batiam com cada sopro que o vento dava contra ela... era o local perfeito para eu me abrigar da chuva por pelo menos algumas horas, já que o céu estava clareando mais ao norte. Adentrei a pequena trilha que levava até a grande porta da casa, era uma porta dupla com detalhes em cobre e sinais de arrombamento na maçaneta e marcas de unha de cima até em baixo. Entrei na casa e não vi nada de anormal, tudo seguia a mais perfeita ordem, os enfeites estavam alinhados, as mesas intactas e o sofá era tentador. Caminhava devagar observando tudo o que me cercava, queria ter a certeza de que nada me proporcionaria riscos dentro daquele oásis. Andei até o que me parecia ser o banheiro, queria algumas toalhas limpas e secas para me enxugar um pouco antes de deitar naquele grande sofá... ouvi um barulho e em frações de segundos eu estava no chão, um morto vivo havia me agarrado. Apesar das tentativas ferozes de me morder ele parecia não conseguir encaixar o golpe perfeito, tentava me morder por todos os lados enquanto eu batia e chutava o filho da mãe. Era aterrorizante o cheiro podre que vinha dele misturado ao desespero de me matar, nunca tinha sentido tanto medo em minha vida, a adrenalina percorria todo o meu corpo rapidamente. O afastei com um chute certeiro no meio do tórax (algo que rendeu coisa de segundos para me afastar para trás) eu estava encurralado e a unica coisa que me afastava dele era o meu pé erguido em direção ao seu rosto, a cada investida do morto-vivo o meu pé estava ali para o afastar. No meu desespero tentei apalpar alguma coisa ao meu redor, passava a mão a procura de qualquer coisa para me ajudar, foi aí que eu senti a vassoura que estava no canto direito do banheiro apoiada na parede, com um movimento rápido acertei a cabeça do monstro que parecia cambalear um pouco a cada pancada que eu acertava em seu crânio e foi assim de repente que eu o vi caindo imóvel em minha frente, a cabeça sangrando e o corpo ainda em espasmos rápidos me davam a impressão de uma convulsão. Quando tudo se aquietou, uma tristeza profunda se apoderou dos meus pensamentos, a falta de esperança tomou conta da minha força de vontade e eu deitei ali imóvel durante horas. O que seria de nós agora? O exército não conseguiria resolver a situação toda, a ajuda era mais do que bem-vinda... mas o que seria deles também? com os pensamentos e a tristeza me socando por dentro deitei ali mesmo no banheiro, tranquei a porta e deitei na banheira me entregando ao sono confuso que se apoderava de mim.
Acordei já era tarde, o sol se punha quase com alívio depois de tudo que o dia tinha oferecido, agora era eu, eu mesmo e a lua que se erguia. Era difícil caminhar no escuro, a estrada esburacada e molhada afundava meu pé inúmeras vezes, quase um alarme para todos os potenciais perigos que me cercavam. Me pareciam mais uma placa de neon dizendo "Me devore". Andei, andei, andei, andei por muitos minutos, por muitas horas. Estava ofegante, cansado e sujo... era bom para eu me acostumar com o que estava a minha espera. No final da estrada consegui ver os prédios que se erguiam em minha frente pouco a pouco enquanto eu entrava no centro daquele inferno, ao longe conseguia ouvir os gemidos e gritos daqueles que estavam vivos e daqueles que estavam mortos. Me esgueirei pela cidade andando próximo aos muros e paredes, me escondendo a cada barulho que escutava e rezando a cada vez que via um deles. Eu estava sozinho, desprotegido e sem meios de lutar pela minha vida, eu era um cordeiro no meio de lobos famintos... Famintos demais para o meu gosto. Andava em direção a minha antiga casa, de onde eu estava demoraria mais ou menos uns 20 minutos até lá, era um caminho fácil sem viradas ou paradas, seguiria reto toda a vida até encontrar a minha família, ou não encontraria? Esse era meu medo. Eles podiam estar mortos ou pior, podiam estar todos agora andando por aí feito monstros... Era horrível pensar nisso.
Exatamente 23:32 eu cheguei na pequena casa que ficava no meio do bloco, branca, uma grande árvore no jardim da frente que ainda tinha um pequeno balanço indo pra lá e pra cá com o vento, duas janelas na parte da frente e as duas com as cortinas fechadas, a porta fechada e intacta me encheu de esperança, corri imprudentemente até a entrada de casa e abri a porta rapidamente. O silêncio era absoluto. Por três vezes chamei meus pais, sem nenhuma reposta. Adentrando mais na pequena residência vi que tudo estava revirado, parecia até que a sala de estar tinha sido palco para uma breve luta. O sangue fazia uma trilha até o quarto do fundo onde eu costumava dormir. A porta estava fechada e a maçaneta estava torta quase completamente, empurrei levemente a porta com os ombros e entrei no pequeno cômodo. Caí de joelhos quando vi os dois mortos, meu pai na cama e minha mãe no chão, cada um deles com um facão encravado na cabeça. Me senti morrer por dentro, era quase como se toda a esperança que restava tivesse sido sugada de uma vez só. De joelhos aos prantos consegui escutar passos atrás de mim, eram espaçados, firmes e decididos. Os passos se aproximavam cada vez mais, um por um eles vinham chegando, se aproximando, deixando sua presença ser sentida. Senti o aço frio de uma espingarda encostar em minha nuca, antes mesmo de eu conseguir virar ouvi a voz que soou como um trovão para mim... Era minha noiva, era Michelle e ele estava viva. Com a voz suave de sempre ela disse:
-O covarde voltou, hã?
Andando alguns metros me deparei com uma grande casa de madeira era alta e imponente, ficava sombria com a chuva que caia e as janelas batiam com cada sopro que o vento dava contra ela... era o local perfeito para eu me abrigar da chuva por pelo menos algumas horas, já que o céu estava clareando mais ao norte. Adentrei a pequena trilha que levava até a grande porta da casa, era uma porta dupla com detalhes em cobre e sinais de arrombamento na maçaneta e marcas de unha de cima até em baixo. Entrei na casa e não vi nada de anormal, tudo seguia a mais perfeita ordem, os enfeites estavam alinhados, as mesas intactas e o sofá era tentador. Caminhava devagar observando tudo o que me cercava, queria ter a certeza de que nada me proporcionaria riscos dentro daquele oásis. Andei até o que me parecia ser o banheiro, queria algumas toalhas limpas e secas para me enxugar um pouco antes de deitar naquele grande sofá... ouvi um barulho e em frações de segundos eu estava no chão, um morto vivo havia me agarrado. Apesar das tentativas ferozes de me morder ele parecia não conseguir encaixar o golpe perfeito, tentava me morder por todos os lados enquanto eu batia e chutava o filho da mãe. Era aterrorizante o cheiro podre que vinha dele misturado ao desespero de me matar, nunca tinha sentido tanto medo em minha vida, a adrenalina percorria todo o meu corpo rapidamente. O afastei com um chute certeiro no meio do tórax (algo que rendeu coisa de segundos para me afastar para trás) eu estava encurralado e a unica coisa que me afastava dele era o meu pé erguido em direção ao seu rosto, a cada investida do morto-vivo o meu pé estava ali para o afastar. No meu desespero tentei apalpar alguma coisa ao meu redor, passava a mão a procura de qualquer coisa para me ajudar, foi aí que eu senti a vassoura que estava no canto direito do banheiro apoiada na parede, com um movimento rápido acertei a cabeça do monstro que parecia cambalear um pouco a cada pancada que eu acertava em seu crânio e foi assim de repente que eu o vi caindo imóvel em minha frente, a cabeça sangrando e o corpo ainda em espasmos rápidos me davam a impressão de uma convulsão. Quando tudo se aquietou, uma tristeza profunda se apoderou dos meus pensamentos, a falta de esperança tomou conta da minha força de vontade e eu deitei ali imóvel durante horas. O que seria de nós agora? O exército não conseguiria resolver a situação toda, a ajuda era mais do que bem-vinda... mas o que seria deles também? com os pensamentos e a tristeza me socando por dentro deitei ali mesmo no banheiro, tranquei a porta e deitei na banheira me entregando ao sono confuso que se apoderava de mim.
Acordei já era tarde, o sol se punha quase com alívio depois de tudo que o dia tinha oferecido, agora era eu, eu mesmo e a lua que se erguia. Era difícil caminhar no escuro, a estrada esburacada e molhada afundava meu pé inúmeras vezes, quase um alarme para todos os potenciais perigos que me cercavam. Me pareciam mais uma placa de neon dizendo "Me devore". Andei, andei, andei, andei por muitos minutos, por muitas horas. Estava ofegante, cansado e sujo... era bom para eu me acostumar com o que estava a minha espera. No final da estrada consegui ver os prédios que se erguiam em minha frente pouco a pouco enquanto eu entrava no centro daquele inferno, ao longe conseguia ouvir os gemidos e gritos daqueles que estavam vivos e daqueles que estavam mortos. Me esgueirei pela cidade andando próximo aos muros e paredes, me escondendo a cada barulho que escutava e rezando a cada vez que via um deles. Eu estava sozinho, desprotegido e sem meios de lutar pela minha vida, eu era um cordeiro no meio de lobos famintos... Famintos demais para o meu gosto. Andava em direção a minha antiga casa, de onde eu estava demoraria mais ou menos uns 20 minutos até lá, era um caminho fácil sem viradas ou paradas, seguiria reto toda a vida até encontrar a minha família, ou não encontraria? Esse era meu medo. Eles podiam estar mortos ou pior, podiam estar todos agora andando por aí feito monstros... Era horrível pensar nisso.
Exatamente 23:32 eu cheguei na pequena casa que ficava no meio do bloco, branca, uma grande árvore no jardim da frente que ainda tinha um pequeno balanço indo pra lá e pra cá com o vento, duas janelas na parte da frente e as duas com as cortinas fechadas, a porta fechada e intacta me encheu de esperança, corri imprudentemente até a entrada de casa e abri a porta rapidamente. O silêncio era absoluto. Por três vezes chamei meus pais, sem nenhuma reposta. Adentrando mais na pequena residência vi que tudo estava revirado, parecia até que a sala de estar tinha sido palco para uma breve luta. O sangue fazia uma trilha até o quarto do fundo onde eu costumava dormir. A porta estava fechada e a maçaneta estava torta quase completamente, empurrei levemente a porta com os ombros e entrei no pequeno cômodo. Caí de joelhos quando vi os dois mortos, meu pai na cama e minha mãe no chão, cada um deles com um facão encravado na cabeça. Me senti morrer por dentro, era quase como se toda a esperança que restava tivesse sido sugada de uma vez só. De joelhos aos prantos consegui escutar passos atrás de mim, eram espaçados, firmes e decididos. Os passos se aproximavam cada vez mais, um por um eles vinham chegando, se aproximando, deixando sua presença ser sentida. Senti o aço frio de uma espingarda encostar em minha nuca, antes mesmo de eu conseguir virar ouvi a voz que soou como um trovão para mim... Era minha noiva, era Michelle e ele estava viva. Com a voz suave de sempre ela disse:
-O covarde voltou, hã?
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Pt.1- Devaneio da Madrugada
Acho que vaguei por essa cidade mais do que consigo me lembrar, e nas lembranças ficou o tudo que existia antes de toda essa droga acontecer. Quem lembra quando começou? Poucos... e os poucos que se lembram estão mortos agora, alguns ainda vagam por aí sem razão, outros viraram comida nessa nova cadeia alimentar em que vivemos.
Me chamo Noa e tenho 27 anos e 39 dias, sei disso porque tenho um diário. Não é por questão de vaidade, sabe? Mas as vezes me sinto sozinho e preciso dialogar com alguém... e quem melhor para me escutar do que eu mesmo? Vivo em um apartamento em ruínas, não é o melhor lugar da cidade para se viver, mas com certeza é o mais seguro. Tenho uma visão bem ampla de tudo que se aproxima ao meu redor e daqui também consigo escutar tudo que passa lá em baixo, tenho um teto e consigo me proteger da chuva ácida que acontece de vez em nunca. Até onde consigo me lembrar eu sou o único sobrevivente dessa cidade, e isso tem suas vantagens, minha insônia crônica vem melhorado com o tempo e eu posso observar as estrelas em todo seu esplendor. Tirando a horda de mortos-vivos que mora aqui do lado, posso aproveitar minhas noites tranquilamente já que o prédio não tem mais escadas, e até onde eu sei eles não são capazes de escalar.
Devido a observações diárias consegui ver que eles adquiriram a prática do canibalismo, isso é bom e ruim ao mesmo tempo. A parte boa é que os indivíduos diminuem a cada dia, e a ruim é que o perigo do meu cheiro ser farejado por esses monstros aumenta, o que torna mais arriscada minha busca por suprimentos uma vez por semana. O barulho é outra coisa que devo evitar o máximo possível, o som os atrai e é por isso que nunca peguei em uma arma durante muito tempo. Tenho um cano de ferro que me acompanha desde sempre e um facão que encontrei na cabeça de um deles.
É difícil sobreviver sozinho mas companhia é uma coisa que se deve evitar, confie apenas em si e deixe tudo o que te atrasa para trás. Cachorros são animais leais ao homem, mas apenas em outros tempos, em tempos como este onde a comida é escassa eles se tornam animais traiçoeiros, escravos dos próprios instintos.
O início foi difícil, me lembro como se fosse ontem do desespero generalizado que tomava o mundo todo, as pessoas corriam como baratas tontas, alguns se escondiam nas igrejas, outros procuravam refúgio nos hospitais... a fé na medicina e em Deus se provou a maior assassina que podia existir, as mordidas e arranhões eram mais fortes que as preces e as bandagens. Pouco a pouco a cidade foi sendo tomada pelo caos, o vírus se espalhou rapidamente, lembrando muito a peste negra. Os cadáveres eram despejados em valas comuns e incinerados, não dava pra distinguir os cadáveres dos mortos-vivos. Aquilo chocou o mundo todo.
Eu estava no escritório quando a primeira notícia foi anunciada, "Grupo de canibais causa terror no centro da cidade", em um mundo onde vivemos (ou vivíamos) eu não esperava menos da nossa raça. Uma hora e 23 minutos depois uma notícia nova aparece, "Vírus se espalha por toda a cidade, 1 morte é registrada por minuto", minha primeira reação foi de me trancar na empresa com todos os outros e esperar por mais alguma notícia aparecer. Ficamos ali por quarenta e oito horas enquanto víamos a cidade ser engolida pelos mortos do alto de nossas janelas. Por diversas vezes eu tentei entrar em contato com meus pais e minha noiva, ninguém atendeu e após vinte e duas horas do começo de tudo a energia, água e linhas telefônicas foram cortadas. Estávamos ilhados, sem comunicação e sem previsão de resgate... não seria tão ruim se não fosse o desespero dos meus colegas de trabalho. Alguns tentaram passar pela barricada que criamos, não impedimos ninguém de sair... eles saíam correndo apenas para serem devorados minutos depois enquanto corriam. O sangue descia das partes mais altas da rua como um córrego, entrava pelas bocas-de-lobo e desaparecia... quantos seres-humanos ainda restavam naquele inferno? Só viemos a saber depois de três dias, quando um dos helicópteros do exercito enxergou o sinal que havíamos feito no topo do prédio. 20 pessoas tinham sido resgatadas, todas trancadas em prédios ou casas... nem os mais fortes sobreviveram, afinal, o que são seus músculos contra uma horda de carniceiros enfurecidos e famintos? Os resgates foram encerrados após 10 dias, e na base militar eu não encontrei nem minha noiva, nem meus pais... eles ainda estavam lá, alguma coisa deixava isso bem claro na minha consciência. Eu precisava voltar, eu precisava lutar e encontrar aqueles que me faziam tanta falta. Foi aí que eu violei a primeira regra no jogo da sobrevivência... "Nunca saia da sua área de segurança".
Me chamo Noa e tenho 27 anos e 39 dias, sei disso porque tenho um diário. Não é por questão de vaidade, sabe? Mas as vezes me sinto sozinho e preciso dialogar com alguém... e quem melhor para me escutar do que eu mesmo? Vivo em um apartamento em ruínas, não é o melhor lugar da cidade para se viver, mas com certeza é o mais seguro. Tenho uma visão bem ampla de tudo que se aproxima ao meu redor e daqui também consigo escutar tudo que passa lá em baixo, tenho um teto e consigo me proteger da chuva ácida que acontece de vez em nunca. Até onde consigo me lembrar eu sou o único sobrevivente dessa cidade, e isso tem suas vantagens, minha insônia crônica vem melhorado com o tempo e eu posso observar as estrelas em todo seu esplendor. Tirando a horda de mortos-vivos que mora aqui do lado, posso aproveitar minhas noites tranquilamente já que o prédio não tem mais escadas, e até onde eu sei eles não são capazes de escalar.
Devido a observações diárias consegui ver que eles adquiriram a prática do canibalismo, isso é bom e ruim ao mesmo tempo. A parte boa é que os indivíduos diminuem a cada dia, e a ruim é que o perigo do meu cheiro ser farejado por esses monstros aumenta, o que torna mais arriscada minha busca por suprimentos uma vez por semana. O barulho é outra coisa que devo evitar o máximo possível, o som os atrai e é por isso que nunca peguei em uma arma durante muito tempo. Tenho um cano de ferro que me acompanha desde sempre e um facão que encontrei na cabeça de um deles.
É difícil sobreviver sozinho mas companhia é uma coisa que se deve evitar, confie apenas em si e deixe tudo o que te atrasa para trás. Cachorros são animais leais ao homem, mas apenas em outros tempos, em tempos como este onde a comida é escassa eles se tornam animais traiçoeiros, escravos dos próprios instintos.
O início foi difícil, me lembro como se fosse ontem do desespero generalizado que tomava o mundo todo, as pessoas corriam como baratas tontas, alguns se escondiam nas igrejas, outros procuravam refúgio nos hospitais... a fé na medicina e em Deus se provou a maior assassina que podia existir, as mordidas e arranhões eram mais fortes que as preces e as bandagens. Pouco a pouco a cidade foi sendo tomada pelo caos, o vírus se espalhou rapidamente, lembrando muito a peste negra. Os cadáveres eram despejados em valas comuns e incinerados, não dava pra distinguir os cadáveres dos mortos-vivos. Aquilo chocou o mundo todo.
Eu estava no escritório quando a primeira notícia foi anunciada, "Grupo de canibais causa terror no centro da cidade", em um mundo onde vivemos (ou vivíamos) eu não esperava menos da nossa raça. Uma hora e 23 minutos depois uma notícia nova aparece, "Vírus se espalha por toda a cidade, 1 morte é registrada por minuto", minha primeira reação foi de me trancar na empresa com todos os outros e esperar por mais alguma notícia aparecer. Ficamos ali por quarenta e oito horas enquanto víamos a cidade ser engolida pelos mortos do alto de nossas janelas. Por diversas vezes eu tentei entrar em contato com meus pais e minha noiva, ninguém atendeu e após vinte e duas horas do começo de tudo a energia, água e linhas telefônicas foram cortadas. Estávamos ilhados, sem comunicação e sem previsão de resgate... não seria tão ruim se não fosse o desespero dos meus colegas de trabalho. Alguns tentaram passar pela barricada que criamos, não impedimos ninguém de sair... eles saíam correndo apenas para serem devorados minutos depois enquanto corriam. O sangue descia das partes mais altas da rua como um córrego, entrava pelas bocas-de-lobo e desaparecia... quantos seres-humanos ainda restavam naquele inferno? Só viemos a saber depois de três dias, quando um dos helicópteros do exercito enxergou o sinal que havíamos feito no topo do prédio. 20 pessoas tinham sido resgatadas, todas trancadas em prédios ou casas... nem os mais fortes sobreviveram, afinal, o que são seus músculos contra uma horda de carniceiros enfurecidos e famintos? Os resgates foram encerrados após 10 dias, e na base militar eu não encontrei nem minha noiva, nem meus pais... eles ainda estavam lá, alguma coisa deixava isso bem claro na minha consciência. Eu precisava voltar, eu precisava lutar e encontrar aqueles que me faziam tanta falta. Foi aí que eu violei a primeira regra no jogo da sobrevivência... "Nunca saia da sua área de segurança".
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