Acho que vaguei por essa cidade mais do que consigo me lembrar, e nas lembranças ficou o tudo que existia antes de toda essa droga acontecer. Quem lembra quando começou? Poucos... e os poucos que se lembram estão mortos agora, alguns ainda vagam por aí sem razão, outros viraram comida nessa nova cadeia alimentar em que vivemos.
Me chamo Noa e tenho 27 anos e 39 dias, sei disso porque tenho um diário. Não é por questão de vaidade, sabe? Mas as vezes me sinto sozinho e preciso dialogar com alguém... e quem melhor para me escutar do que eu mesmo? Vivo em um apartamento em ruínas, não é o melhor lugar da cidade para se viver, mas com certeza é o mais seguro. Tenho uma visão bem ampla de tudo que se aproxima ao meu redor e daqui também consigo escutar tudo que passa lá em baixo, tenho um teto e consigo me proteger da chuva ácida que acontece de vez em nunca. Até onde consigo me lembrar eu sou o único sobrevivente dessa cidade, e isso tem suas vantagens, minha insônia crônica vem melhorado com o tempo e eu posso observar as estrelas em todo seu esplendor. Tirando a horda de mortos-vivos que mora aqui do lado, posso aproveitar minhas noites tranquilamente já que o prédio não tem mais escadas, e até onde eu sei eles não são capazes de escalar.
Devido a observações diárias consegui ver que eles adquiriram a prática do canibalismo, isso é bom e ruim ao mesmo tempo. A parte boa é que os indivíduos diminuem a cada dia, e a ruim é que o perigo do meu cheiro ser farejado por esses monstros aumenta, o que torna mais arriscada minha busca por suprimentos uma vez por semana. O barulho é outra coisa que devo evitar o máximo possível, o som os atrai e é por isso que nunca peguei em uma arma durante muito tempo. Tenho um cano de ferro que me acompanha desde sempre e um facão que encontrei na cabeça de um deles.
É difícil sobreviver sozinho mas companhia é uma coisa que se deve evitar, confie apenas em si e deixe tudo o que te atrasa para trás. Cachorros são animais leais ao homem, mas apenas em outros tempos, em tempos como este onde a comida é escassa eles se tornam animais traiçoeiros, escravos dos próprios instintos.
O início foi difícil, me lembro como se fosse ontem do desespero generalizado que tomava o mundo todo, as pessoas corriam como baratas tontas, alguns se escondiam nas igrejas, outros procuravam refúgio nos hospitais... a fé na medicina e em Deus se provou a maior assassina que podia existir, as mordidas e arranhões eram mais fortes que as preces e as bandagens. Pouco a pouco a cidade foi sendo tomada pelo caos, o vírus se espalhou rapidamente, lembrando muito a peste negra. Os cadáveres eram despejados em valas comuns e incinerados, não dava pra distinguir os cadáveres dos mortos-vivos. Aquilo chocou o mundo todo.
Eu estava no escritório quando a primeira notícia foi anunciada, "Grupo de canibais causa terror no centro da cidade", em um mundo onde vivemos (ou vivíamos) eu não esperava menos da nossa raça. Uma hora e 23 minutos depois uma notícia nova aparece, "Vírus se espalha por toda a cidade, 1 morte é registrada por minuto", minha primeira reação foi de me trancar na empresa com todos os outros e esperar por mais alguma notícia aparecer. Ficamos ali por quarenta e oito horas enquanto víamos a cidade ser engolida pelos mortos do alto de nossas janelas. Por diversas vezes eu tentei entrar em contato com meus pais e minha noiva, ninguém atendeu e após vinte e duas horas do começo de tudo a energia, água e linhas telefônicas foram cortadas. Estávamos ilhados, sem comunicação e sem previsão de resgate... não seria tão ruim se não fosse o desespero dos meus colegas de trabalho. Alguns tentaram passar pela barricada que criamos, não impedimos ninguém de sair... eles saíam correndo apenas para serem devorados minutos depois enquanto corriam. O sangue descia das partes mais altas da rua como um córrego, entrava pelas bocas-de-lobo e desaparecia... quantos seres-humanos ainda restavam naquele inferno? Só viemos a saber depois de três dias, quando um dos helicópteros do exercito enxergou o sinal que havíamos feito no topo do prédio. 20 pessoas tinham sido resgatadas, todas trancadas em prédios ou casas... nem os mais fortes sobreviveram, afinal, o que são seus músculos contra uma horda de carniceiros enfurecidos e famintos? Os resgates foram encerrados após 10 dias, e na base militar eu não encontrei nem minha noiva, nem meus pais... eles ainda estavam lá, alguma coisa deixava isso bem claro na minha consciência. Eu precisava voltar, eu precisava lutar e encontrar aqueles que me faziam tanta falta. Foi aí que eu violei a primeira regra no jogo da sobrevivência... "Nunca saia da sua área de segurança".

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