domingo, 2 de fevereiro de 2014

Pt.3- Amor incondicional

Teria sido uma surpresa bastante agradável não fosse o fato de ela ter me rendido e me amarrado em um dos quartos da casa, era meu antigo quarto. As janelas estavam barricadas com tábuas de madeira e as cortinas tinham sido improvisadas com alguns cobertores velhos. A falta de luz e a umidade alta frequente na cidade tinham deixado suas marcas na parede: o mofo crescia abundante por todo o concreto. Estava difícil respirar e ainda mais difícil entender o que estava acontecendo, eu ainda estava em choque com o episódio anterior e não conseguia raciocinar direito para dar uma explicação lógica para tudo aquilo. Voltei a ouvir os passos firmes de Michelle se aproximando do meu quarto, chegando em frente a minha porta ela exitou por alguns segundos antes de abrir a porta com força. A luz do dia invadiu o quarto me cegando por alguns instantes, foi nessa hora que escutei a voz de Michelle gritando comigo:

-Você pretendia me deixar aqui até quando?
-Michelle eu...
-Você o que? Achou que eu já estava morta, é isso?
-Não, eu não consegui sair de onde eu estava durante todo esse tempo, logo que me resgataram eu vim correndo atrás de você!
-Eu quase morri seu filho de uma mãe, eu fiquei aqui nesse inferno o tempo todo com seus pais, porque não mandou seus amiguinhos virem me resgatar também?
-Eles já tinham fechado o perímetro da cidade Michelle, ninguém viria atrás de você!
-Eu esperava mais de você Noa, eu esperava sua coragem em me defender nesses 11 dias que você se ausentou, eu achei que você estava morto mas não! Você apenas estava se escondendo feito um rato... Deus sabe onde! Eu olhava por essa janela todos os dias esperando a tua coragem em aparecer por aqui. 11 dias Noa, 11 dias sozinha nesse inferno. Você tem ideia do que a rejeição pode fazer com alguém?

Um olhar sádico mas triste tomou conta de seu rosto, era quase como se Michelle estivesse possuída pelos seus instintos mais selvagens. As únicas vezes que tinha visto algo parecido era quando brigava comigo por ficar até tarde no trabalho ou quando não levava o cachorro pra passear no horário certo. Era amedrontador, fazia com que arrepios tomassem conta de meu corpo.
Dizendo isso ela se virou, esperou na porta alguns segundos quase como quem espera uma resposta e então saiu trancando a porta.

Eu precisava sair, precisava fugir... tinha a certeza de que ela me mataria. As cordas que ele tinha usado estavam bem velhas e me pareciam meio quebradiças, sabe... o tipo de corda que fica por anos no porão. Comecei a raspar a corda contra a viga que me prendia e uma por uma as ligações foram rasgando, não foi difícil já que as cordas estavam bem velhas. Peguei um pedaço razoável dela e esperei atrás da porta por horas até Michelle vir me alimentar de novo.
Finalmente ouvi seus passos vindo em direção ao quarto lentamente, sua bota pesada fazia muito barulho no chão de madeira. Ouvi sua mão girando a maçaneta da porta e a abrindo, o ranger da madeira fez um barulho alto, alto o bastante para ela não ouvir minha respiração ofegante. Ela deu 3 passos para dentro do quarto e foi aí que eu prendi seu pescoço com a corda, apertava forte mas não queria mata-la, desejava apenas que ela desmaiasse antes disso e foi o que aconteceu. O seu corpo caiu imóvel no chão mas ela ainda respirava. Corri até o quarto onde meus pais estavam e guardei um dos facões comigo, por azar não consegui achar o rifle que Michelle usava mas aquilo era suficiente para salvar minha vida caso precisasse. Voltei ao quarto escuro e prendi Michelle com alguns panos velhos e cobertores, estava firme o suficiente.
12 Horas haviam se passado e eu estava no sofá tentando fazer o velho rádio do meu pai funcionar, estava mudo em todas as estações e mesmo com o volume no máximo eu não conseguia escutar nada além dos pés de Michelle batendo no chão do outro quarto, ela gritava e os batia, me jurava de morte e dizia que tudo aquilo teria vingança. A vingança da vingança.
Ao rodar por todas as estações me deparei com uma em particular, 89.1 AM. Ela dizia uma mensagem repetida "A todos aqueles ainda presos na cidade... nós temos abrigo e segurança, não desista o exercito ainda está fazendo buscas". Mentira. Eles haviam desistido das buscas 3 dias atrás, poderiam ao menos tirar a mensagem do rádio. Em minha concentração e pensamentos não percebi a movimentação que vinha do lado de fora, com os barulhos e gritos que Michelle havia feito uma horda de monstros se juntava lá fora, era horripilante. No momento em que eu corri para calar a boca da minha ex-noiva ouvi a porta da frente despencando, eles estavam dentro. Tentava cortar as amarras de Michelle, mas ela me chutava e me afastava tornando o trabalho impossível e mais desesperador do que já era. Ouvi batidas na porta do quarto justo no momento em que consegui cortar as amarras, tentei puxar Michelle pelo braço mas ela se recusava a fugir comigo.
Quebrei a janela do quarto e sai correndo, um tiro certeiro que a vadia me deu como despedida acertou meu ombro direito, era esse jeitinho meigo que eu tanto amava. Ao olhar pra trás não vi nada além dela sorrindo na janela com aquele mesmo olhar sádico e horripilante... corri e nunca mais olhei pra trás. Eu estava sozinho.


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